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Juliana limpou as lágrimas que lhe escorriam pela cara. Não se apercebera que estava a chorar nem o porquê disso.
O sol já começava a raiar.
Ajustou mais o casaco de cabedal à t-shirt e foi lentamente para casa. Ignorou todos os objectos partidos que viu quando transpôs a porta e dirigiu-se para uma figura estendida no chão da sala. Pontapeou levemente a sua mãe.
- Vai para a escola….
Mas que voz decadente…
A filha abaixou-se e pegou numa fotografia com a moldura partida que estava aos seus pés. O seu pai morto devolvia o olhar, preso na fotografia com um sorriso eterno. Deixou cair a moldura para o chão com uma expressão de nojo. Subiu para o seu quarto, tinha de ir buscar a mochila para a escola. Ainda não sou uma total irresponsável, vá lá…
Estava a sair de casa quando voltou para trás – havia um maço de tabaco no chão, que lhe parecia chamá-la alegremente, “ei, vem buscar-me!”. Feliz, apanhou-o e colocou-o no bolso do casaco.
Foi andando sem pressa, cantava baixinho. The itsy bitsy spider came up the water spout. Down came the rain and washed the spider out….
Não ficou preocupada com a mãe, não tinha visto nenhum frasco de comprimidos no chão. Já era habitual ela embebedar-se de vez em quando desde que o marido morrera. Até é compreensível. Apanhara-a a olhar nostalgicamente para umas fotos dele no dia anterior, o que era sinal seguro de que estaria de ressaca na manhã seguinte. É compreensível…
Naturalmente, ainda não havia ninguém na escola. Não estava com muitas forças para continuar a passear por ali, pelo que se foi sentar na entrada do pavilhão D. Tirou o mp3 da mala e ligou-o. My Chemical Romance, óptima anti-droga. Saltou as canções todas até chegar à sua favorita. Cantarolava descansadamente o refrão da Disenchanted quando o phone foi-lhe arrancado do ouvido suavemente.
- Bom dia querida, mas que aplicados que estamos, não é um pouco cedo para estares na escola?
- Tal como é incrível o facto de tu saberes o que é uma escola e onde se localiza.
Paulo levou a mão ao coração, como se tivesse sido atingido mortalmente.
- Essa doeu, boneca. Doeu. Sabes que eu não ligo muito às nossas prezadas instituições de ensino. Nada pessoal, sabes? Só tenho é uns assuntos inadiáveis para tratar durante o período de aulas .
Juliana retirou o outro phone, não dava para ouvir música com aquela melga por perto.
- Pois. Chega de tretas. O que é que queres?
- O meu casaco, my love – foi a resposta acompanhada por um habitual olhar vazio.
Ela tirou o maço de tabaco, e atirou o casaco para cima da cabeça do rapaz.
- Óptimo, aí o tens. Baza.
O maço de tabaco foi-lhe tirado bruscamente das mãos. Ela suspirou.
- Dá-me isso.
- Não me parece. Vais recusar um anti-stressante ao teu melhor amigo?
- Não me parece que amigos seja a melhor definição para nós agora…
- Juliana…
- Desde há muito tempo, aliás. Se estás stressado talvez seja por falta de coca, vai vender o casaco e compra-a, não é o que andas a fazer agora?
O maço de tabaco voou para o seu colo. Um contacto visual inquietante foi estabelecido por alguns segundos.
- Ouvi dizer que o vídeo dos MCR vai estrear brevemente.
- Sim, eu sei – foi a resposta seca.
O rapaz olhou para ela mais uns segundos com os seus olhos azuis escuros.
- Adeus – e deu meia volta para sair do recinto da escola.
Juliana murmurou um “adeus” e voltou a colocar os phones. Pensou se seria verdade aquilo sobre o vídeo de Disenchanted. Também pensou em por que razão Paulo não se teria despedido dela com um querida.

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