VIII
Ficou calada por um minuto, a mirá-lo de alto a baixo, o cabelo loiro escuro desgrenhado, o inevitável casaco de cabedal preto desengonçado, uns jeans esfarrapados, um converse azul e outro vermelho e olhos azuis expectantes. Juliana foi assolada por uma tristeza absoluta e sentiu a vista a ficar húmida.
- Entra – e puxou-o pela manga para dentro da sala. fechando a porta de seguida. Fechou a porta e virou-se para o confrontar. Ele estava a tremer, apesar de não estar frio nenhum. Uma fracção de segundo depois, caiu no chão. Oh, merda! Juliana precipitou-se para ele.
- Paulo! Paulo! – chamava por ele em surdina, não fosse a mãe ouvi-la. Como ele não respondia, começou a dar-lhe chapadas leves na face. Lentamente, ele lá abriu os olhos.
- Ei, que…
“PÁS!”, nem teve tempo de acabar a frase, tendo sido interrompido por uma forte bofetada.
- Estúpido! Fazes ideia do susto que me pregaste?
Ele sorriu confuso e já ia a abrir a boca para responder quando notou no sinal que Juliana lhe fazia, com um dedo em frente dos lábios. Ajudou-o a levantar (com muito esforço já que, para alguém que perdia peso a olhos vistos, ele pesava bastante) e apoiou-o a subir as escadas em direcção ao seu quarto, que trancou de seguida.
Percebeu que talvez lhe tivesse dado a ideia errada ao sentir a cara de Paulo a aproximar-se perigosamente da sua.
Afastou-o firmemente.
- NÃO. Tu e eu: não.
Ele parecia cada vez mais baralhado e cansado:
- Mas então…
- Mas então nada. Não te ia deixar completamente drogado na rua, percebes? Mas isso não significa que eu te responda a coisas de que nem sequer te vais lembrar amanhã ou que façamos algo sem sentido que não iria ajuda-nos em nada –acabou de discursar pausadamente, esperando que algo que ele tivesse ouvido chegasse a alguma parte do cérebro que não estivesse sob o efeito da cocaína ou fosse lá o que fosse que ele tivesse sniffado ou fumado.
- Nada? – murmurou ele, sentando-se na cama de Juliana que estava decorada com vários peluches amuados do Garfield.
- Nada…. Deita-te, ok? E amanhã de manhã, mal acordares, pira-te daqui. Não te quero ver por uns bons tempos.
Paulo adormeceu rapidamente, o tempo que ela demorara a fumar meia-dúzia de cigarros na varanda do quarto. Adorava estar na varanda, era como se tudo desaparecesse menos o cantar dos grilos, o céu, a lua e as estrelas. Ao inspirar profundamente- até o ar ficava mais puro à noite, devia ser por haver menos gente nas ruas, os humanos poluem o ar simplesmente por respirá-lo), lembrou-se inexplicavelmente de outra cena passada sob aquele mesmo céu – bem, qual outro? -, só que no parque infantil. Memórias tão confusas..
Quando voltou, sentou-se de joelhos à cabeceira da cama, a ajeitar-lhe madeixas do cabelo. Ele tinha despido o casaco, sorriu ao ver que envergava uma t-shirt dos yellowcard, mas…que raio. Esbugalhou os olhos ao pegar num dos seus braços pálidos que exibia várias marcas de agulhas.