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VI

Posted in 6 with tags on Outubro 7, 2008 by rockmix137

-Vai falar com ele!
- Sim, pois claro. – Juliana revirou os olhos, um hábito cada vez mais frequente.
Estava sentada com Rita, Sara e Nicola num canto do recinto da escola, algo resolvido à última da hora quando ouviram o rumor de que haveria teste de Educação Física. Resolveram poupar à professora o esforço de as avaliar. Conseguiam ouvir os resmungos do resto da turma no canto de futebol, onde deviam estar a realizar o teste dos bips.
- Sabes, acho que a Rita tem razão. – apoiou Nicola, encaracolando madeixas do cabelo loiro enquanto estudava curiosa a avidez com que Sara dava passas no cigarro.
- Oh não. Tu também não. Não passes para o lado negro. – respondeu com uma gargalhada seca Juliana. – Ele nem quer falar comigo.
Ficaram em silêncio por uns segundos. Rita ofereceu um cigarro a Nicola, que recusou com um esgar de repulsa.
- Oh, que enjoadinha. Emagrecias num instante.
- Não a chateies com essas merdas.
- Olha, olha. A nossa Ju deu em conservadora.
“Ju” pareceu não ouvir o comentário em tom cínico, continuando a olhar distantemente o céu. As outras raparigas observaram a amiga com olhares cúmplices. Um sorriso tímido surgiu na cara da mais nova:
- Tu estás mesmo preocupada com ele.
- Bem, Nicola, é o que os amigos fazem. Pelo menos acho que somos amigos.
- Claro que são! Portanto pára de ser parva. Há quanto tempo é que não falam?
Rita ouvia com interesse a conversa entre aquelas duas. Sara procurava desesperadamente por um maço de cigarros na mala.
- Quase uma semana. – Juliana desistiu de procurar seja lá o que fosse que procurava no céu e fixou os seus olhos nos outros castanhos claros da colega. – É estranho.
- Então, faz o que tens a fazer.
- Hum. E o que é que tenho a fazer exactamente?
- Acho que sabes, querida. – respondeu Nicola com uma expressão trocista.
Todas se riram naquela imitação perfeita da expressão favorita de Paulo. Juliana levantou-se, sacudindo as calças.
- Ok, já percebi… Parece então que também vou ter de me baldar à aula de Filosofia. Que pena, não é?
Depois das despedidas feitas, saiu apressadamente da escola e tirou o telemóvel do bolso.
“Podes vir ter comigo? Sítio do costume…” O ecrã iluminou-se com as palavras “Mensagem enviada”.

Passou meia-hora sentada no baloiço.
Nem resposta à s.m.s. nem ele aparecia.
Estúpida. Ele não vem. Sentiu-se patética por sentir um nó na garganta, sinal de que havia uma lágrima prestes a rebentar, acabando por sair a correr do parque – que também estava a ficar cheio de criancinhas chatas.
Ignorou a mãe ao entrar em casa, indo directamente para o quarto. Trancou-o o mais rápido que conseguiu por que conseguia ouvir os passos da mãe preocupada a subir as escadas.
- Juliana? Por favor, abre a porta. Não te custa nada conversar comigo! Por que é que não estás na escola? ABRE-ME A PORTA!… –a mãe cansou-se de bater passados uns minutos e foi embora para a cozinha, tentando esquecer a garrafa de vodca guardada no armário.
Eventualmente, Juliana acabou por adormecer mesmo vestida na cama, a cabeça por baixo da almofada – ainda húmida do choro de que tinha sido vítima.
“Tuc.”
Abriu um olho.
“Tuc.” “Tuc”. “Tuc”. “Tuc”
Seria a mãe a bater outra vez?
“Tuc” “Tuc”.
Não era. Surpreendeu-se ao ver pedrinhas baterem na janela.
Ergueu-se a custo, embora já desperta e espreitou pelo vidro. Sentiu um aperto nas entranhas. Acenou para a pessoa lá em baixo e abriu as portadas.
- Hey, querida. – Paulo sorria-lhe de maneira tonta e efusiva.
- Hey, imbecil.
- Ouch. Para que tanta violência?
- Por que é que não foste lá ter?
- Eu perguntei primeiro…
- Cala-te!
- Tinha umas coisa para fazer, boneca.
Até à distância, eram visíveis os olhos avermelhados de Paulo.
- Tu estás completamente drogado.
- Não exageres… Por favor, não podes vir cá abaixo? Dói-me o pescoço…
Juliana mordeu o lábio, mas destrancou o quarto e desceu silenciosamente até à sala. Mal abriu a porta principal, lá estava ele. Não era exagero: tinha as pupilas dilatadas e tremia como se estivesse prestes a ter um ataque.
- Olá. – disse ele como se se tivessem encontrado num café..
- O que raio andas a fazer a ti próprio? – saiu-lhe da boca sem mais nem menos, com um misto de tristeza e repulsa.
Para surpresa da rapariga, Paulo caiu no chão de joelhos.
- Eu amo-te.

- Quantas doses exactas é que tu tomaste?
- Não estou a brincar, Juliana.
Há sempre algo na maneira como a pessoa que amas diz o teu nome, não há?